Quando a prestação volta a mexer

08 julho 2026
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Leia o artigo de opinião de Marta Almeida

Quando a prestação volta a mexer 0

Um empréstimo típico de 150 mil euros, a 30 anos, com a Euribor a doze meses, paga hoje perto de 700 euros por mês — alguns euros acima do que pagaria há semanas, e bem acima do que muitos contavam quando começaram a sonhar com a compra. A Euribor regressou em alta e, com ela, o aperto sobre quem compra casa com crédito. Num mercado onde cada décima conta, o verdadeiro valor da consultoria deixa de estar em encontrar a casa — e passa a estar em tratar a decisão imobiliária e a decisão de financiamento como uma só. Durante quase dois anos habituámo-nos a uma boa notícia mensal: a prestação da casa a descer. Esse ciclo terminou. A Euribor voltou a subir, empurrada pela incerteza geopolítica e por um Banco Central Europeu que, depois de meses a aliviar, agravou de novo o custo do dinheiro, com a taxa de depósito a regressar aos 2,25%. Na prática, um empréstimo típico de 150 mil euros, a 30 anos, com a Euribor a doze meses, paga hoje perto de 700 euros por mês — alguns euros acima do que pagaria há semanas, e bem acima do que muitos contavam quando começaram a sonhar com a compra.Pode parecer pouco. Não é. Em Portugal, cerca de metade dos empréstimos para habitação própria está indexada a taxa variável, o que significa que esta subida não fica nos jornais: chega ao orçamento de centenas de milhares de famílias quando o contrato é revisto. E há um efeito menos visível, mas mais decisivo: à medida que os juros sobem, encolhe o montante que cada família consegue financiar. Com o mesmo rendimento, uma subida da Euribor para 3% pode reduzir o crédito máximo a que se tem acesso em dezenas de milhares de euros. Por outras palavras, não é só a prestação que aumenta — é o universo de casas que se torna comprável que diminui. É aqui que a conversa habitual sobre o imobiliário fica curta. Falamos muito de preços e de Euribor como se fossem dois números nacionais que sobem ou descem em bloco. A realidade é mais áspera e mais interessante: não existe "um" mercado, existem micro-mercados, rua a rua, prédio a prédio. Os índices nacionais continuam em máximos, mas já há zonas a estabilizar e outras em correção. Quem compra ou vende com base na média do país está a navegar com o mapa errado. E é precisamente neste ambiente — de taxas voláteis, capacidade de compra apertada e mercado desalinhado — que a consultoria imobiliária pode (e deve) reposicionar-se. Durante os anos de dinheiro barato e procura em alta, era fácil confundir mediação com intermediação: bastava aproximar quem vendia de quem comprava. Esse papel esgotou-se. Quando cada décima de juro mexe na fronteira entre o "consigo" e o "não consigo", o consultor que acrescenta valor é outro. Acrescenta valor quem ajuda o comprador a alinhar a casa que deseja com o crédito que realmente lhe será aprovado — antes de se apaixonar por um imóvel fora do seu alcance. E é aqui que se revela o erro mais comum do setor: tratar a procura de casa e a obtenção de crédito como dois processos separados, entregues a profissionais que nunca falam entre si. O cliente anda de um lado para o outro, perde tempo, perde margem de negociação e, demasiadas vezes, descobre tarde de mais que a casa que escolheu não cabe no financiamento que consegue. A resposta a um mercado de taxas voláteis é precisamente a contrária: aproximar a mediação imobiliária e a intermediação de crédito num único percurso, coordenado desde o primeiro dia. Saber, logo na primeira conversa, qual é a capacidade real de financiamento. Saber o que muda entre taxa variável, fixa e mista, e quando faz sentido renegociar, fixar ou transferir o crédito em vez de aceitar passivamente a revisão da prestação. Saber proteger o comprador de comprometer o orçamento familiar quando a Euribor volta a subir. Quando o conselho sobre o imóvel e o conselho sobre o dinheiro vêm da mesma equipa, a decisão é mais rápida, mais segura e mais barata para quem a toma. Do lado de quem vende, o papel é igualmente exigente. Num mercado que já não sobe de forma uniforme, o maior risco do proprietário é ancorar o preço naquilo que o vizinho conseguiu há dois anos. O consultor competente é o que tem a coragem — e os dados — para dizer que o imóvel não vale o que o cliente gostaria, mas o que o mercado, naquela rua e naquele mês, está disposto a pagar. Um preço realista vende; um preço otimista envelhece o anúncio e desvaloriza o ativo. Há ainda uma camada que poucos dominam e que se tornou central: ligar as medidas fiscais recentes — o IVA reduzido na construção, os benefícios sobre as chamadas rendas moderadas, as regras para não residentes — a decisões concretas. Saber quando compensa esperar, quando compensa avançar, e para que tipo de imóvel e contrato cada incentivo faz diferença. Isto não é vender casas. É consultoria, no sentido literal da palavra. A subida da Euribor, no fundo, devolve à profissão a sua razão de existir. Quando comprar era fácil e barato, dispensava-se o conselho. Agora que cada decisão carrega risco — de timing, de financiamento, de sobre-endividamento —, o consultor imobiliário tem a oportunidade de deixar de ser medido pelo número de transações e passar a sê-lo pela qualidade das decisões que ajudou a tomar. A diferença é subtil, mas é tudo. Um mercado nervoso não precisa de mais vendedores, nem de mais intermediários de crédito a trabalhar isolados uns dos outros. Precisa de equipas que juntem as duas competências sob o mesmo teto e ao serviço da mesma decisão. Precisa, no fundo, de mais conselheiros de confiança. Coordenadora Nacional DSIC, DSI e DST